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terça-feira, 2 de setembro de 2014

AS CHAGAS DA SAÚDE

A Gazeta publicou no domingo (24) o segundo caderno especial sobre a saúde em Alagoas que mostrou a rotina sofrida e o tratamento desumano dado a usuários do SUS


Por Maurício Gonçalves, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)


Foto: Marcelo Albuquerque/Gazeta de Alagoas


A grade do minipronto-socorro do Benedito Bentes separa dois mundos, entre a vida e a prisão do SUS. Do lado de cá, somos nós, fora do jornal. Do lado de lá, os olhos do paciente exausto refletem o sofrimento de anos de luta contra a doença mal tratada que mutila aos poucos. Vão-se os dedos, os pés, as pernas e o paciente vai desaparecendo. Ficam os anéis da corrupção, negligência, burocracia e de tudo o que não presta na rede pública de Alagoas. O destino pode ser a cadeira ao lado, vazia, onde o enfermo invisível também sumiu, perdeu-se nas estatísticas e virou etiqueta de saco cadavérico.

Encostados na parede, ao fundo, os usuários no banco de espera são vítimas ansiosas para denunciar crimes. Parecem não se identificar “temendo represálias”. A grade serve de venda para o homem de camisa vermelha, o rapaz de cabeça abaixada não é reconhecido. Eles vão acusar ladrões da saúde alheia, como a hipertensão, vermes variados e a diabetes que deteriora membros do corpo. São males fáceis de identificar (quando se consegue fazer exames), os bandidos são reconhecidos, mas o sistema é bruto e dá as ordens: “o doente que sofra atrás do xadrez da impunidade”.

Delitos corriqueiros, patologias simples, facilmente preveníveis, tomam corpo e se transformam em doenças graves, crimes hediondos. Com o abandono da atenção à saúde básica, uma lombriga que não se evita por falta de agentes de saúde da família, nem é combatida no posto da comunidade, pode virar uma complicação intestinal grave. Sem atendimento ambulatorial nem hospitalar no interior, o caso piora e vem para a vala comum do HGE, em Maceió, mas retorna ao município de origem e agora depende de uma vaga no temido Cora (Complexo Regulador Assistencial). É um balaio de estupidez que custa muito mais caro aos cofres públicos.

Não existe muita lógica nisso, mas para tentar entender um pouco como funciona o SUS em Alagoas, a Gazeta acionou uma equipe de repórteres para percorrer unidades de saúde em vários pontos do estado, relatar a rotina sofrida dos usuários, conversar com profissionais, agentes de fiscalização e gestores que atuam na área. O resultado dessa investigação jornalística é assustador, e começou a ser revelado num caderno especial, publicado domingo passado.

Na edição de hoje, o caderno de Saúde está separado em quatro blocos de assuntos para guiar os leitores neste mergulho ao poço sem fundo em que se tornou a saúde pública. O primeiro bloco traz matérias sobre hospitais e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). O segundo trata da problemática saúde básica. No bloco 3, o foco são as denúncias e personagens. Já o quarto bloco traz entrevistas reveladoras com o tema, debates e análises.

Ao ingressar em cada um desses blocos, o leitor vai perceber que os males são enganchados uns aos outros, como uma grande teia de aranha com insetos presos debatendo-se em vão. Os pacientes da foto acima esperam para entrar em um minipronto-socorro que sempre está lotado, enquanto a UPA do mesmo bairro, construída em área de 1.220 m², continua fechada, sem previsão para inaugurar por falta de profissionais e equipamentos.

A estrutura metálica da UPA de Maragogi enferruja próximo à beira-mar, com equipamentos abandonados, sem nunca ter realizado um atendimento. Com ordem de serviço assinada em 2010 e orçamento de R$ 2,4 milhões, a obra só foi concluída este ano, mas segue sem a menor previsão de quando abrirá as portas. Sem UPA ou hospital, as pessoas se espremem durante horas para ter atendimento em uma unidade que nem aparelho de raio X tem.

Qual besouros e moscas, os pobres alagoanos não conseguem se desgarrar de certos fios pegajosos. A rede do SUS é uma armadilha, do Sertão ao Litoral Norte do Estado. Em Maragogi, a saga da usuária Elane Barros para sobreviver começou com uma dor estranha no abdômen. Sem posto médico no Sítio Ponta de Mangue, ela foi buscar atendimento na Unidade de Saúde da Família do povoado Peroba. Foi encaminhada para a unidade mista da cidade (uma espécie de ambulatório misturado com hospital). Já com suspeita de cálculo renal, esperou 15 dias pelos exames e contraiu infecção urinária. Assustada, só teve um jeito para escapar da teia: saiu de Alagoas rumo ao Hospital de Barreiros, em Pernambuco.

Para a dona de casa Neuza Teodósio, a escapatória é mais complicada. O esgoto do Hospital Clodolfo Rodrigues, em Santana do Ipanema, despeja dentro da sua residência, ao ponto de infiltrar no piso e deixar as paredes úmidas. A contaminação desce dos leitos, banheiros, cozinha e lavanderia do hospital direto para a pele, os brônquios e o aparelho digestivo da vizinha infeliz. Assim como a sertaneja, quem mais habita abaixo do ralo do SUS?

Esgoto hospitalar provoca doenças

Por Patrícia Bastos, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)

Santana do Ipanema – Todo novo, equipado e inaugurado, o Hospital Regional Clodolfo Rodrigues demorou mais de dez anos para funcionar. A expectativa da população de Santana do Ipanema era imensa, já que até o ano de 2010 tinha que viajar a Maceió ou Arapiraca para ter acesso a procedimentos médicos simples. O funcionamento do hospital, no entanto, se tornou um martírio para os moradores do bairro Santa Rita.

O esgoto dos banheiros, a água usada na cozinha, lavanderia e limpeza do hospital escorrem a céu aberto pelas ruas sem pavimentação do bairro. A contaminação provoca doenças e a sujeira está levando famílias a se mudar para longe. Moradores se queixam que são frequentes as ocorrências de diarreia em crianças da região e há também casos de verminoses contraídas pelo contato com os resíduos líquidos.

A desempregada Neuza Teodózio, 58, é uma das vizinhas que mais sofrem. O esgoto escorre em cheio para a residência onde ela mora, que fica em um nível mais baixo do hospital, tornando-se um ambiente insalubre. “Eu só moro aqui porque não tenho condições de ir para outro lugar. Sou uma pessoa sozinha e lutei muito para conquistar essa casa, não posso abandoná-la”, explica Neuza, que sobrevive com a renda do Bolsa Família.

A água servida sai dos fundos do hospital, percorre parte da rua, desce por terrenos baldios e se acumula no muro da casa de Neuza. As paredes ficam úmidas e, pelas infiltrações, o esgoto vai parar dentro da residência. A umidade e o contato diário com a água contaminada levaram a desempregada a desenvolver bronquite asmática, que provocou internação no próprio Clodolfo Rodrigues, em 2012.

“Os médicos disseram que fiquei doente por causa do esgoto e o único jeito de não adoecer mais é saindo dessa casa. É triste, mas ao mesmo tempo é engraçado, pois o hospital que deveria levar saúde, para mim é causa de doença”, pondera.

Neuza Teodózio passa o dia inteiro tentando manter a casa limpa para evitar uma nova crise de bronquite que, além da tosse com muita secreção, provoca também falta de ar. Para evitar a umidade, ela chegou a reforçar as paredes da residência, mas a água começa a minar assim que a cobertura de cimento acaba. A desempregada chegou até mesmo a cimentar uma fileira de tijolos na frente da porta do quarto porque, quando chove, a infiltração é tanta que a água invade até mesmo o aposento.

“O sofá que eu tinha já esculhambou porque a madeira apodreceu por ficar molhada direto. Já perdi também o armário da cozinha e o guarda-roupa por causa da umidade das paredes. Só tenho esses agora porque vizinhos me deram”, relatou, explicando que, agora, para evitar que os móveis se estraguem, passou a deixá-los longe das paredes e suspensos por tijolos.

Neuza reclama ainda que, por causa da infiltração, não consegue manter a casa limpa e sabe que corre o risco de adquirir outras doenças pelo contato com a água contaminada. “Quando o pessoal da Vigilância Sanitária esteve aqui, disse que eu não deveria pegar o pano de chão que uso para enxugar as poças com a mão ou com os pés descalços, mas não tem como limpar de outro jeito”, declarou a moradora, que recentemente pediu socorro à Defensoria Pública.

INSUPORTÁVEL

A vizinha de Neuza, Maria Hilda da Silva, 71, não tem a casa invadida pelo esgoto, mas se preocupa com a neta, que está fazendo tratamento contra uma bactéria contraída pelo contato com a água contaminada. “Quando a gente fez a consulta com ela no hospital, o médico falou que o germe entrou pelo pé. A gente não deixa que ela fique descalça de jeito nenhum, mas acho que ela pode ter pisado nessa água suja sem querer”, contou, dizendo que, antes, a menina já havia sofrido alguns episódios de diarreia.

“Além do risco de ficar doente, o que mais incomoda é o mau cheiro. Quando o sol esquenta é difícil ficar do lado de fora e tem que trancar porta e janelas para o cheiro não entrar dentro de casa”, reclamou.

O cheiro ruim, aliás, é a principal reclamação dos moradores do bairro Santa Rita. Eles se queixam que o fedor atrapalha as refeições e até mesmo o sono. “Mesmo com as portas fechadas, não tem como impedir o cheiro de entrar. Às vezes, a gente perde até o apetite porque, na hora em que vai colocar a comida na boca, o fedor entra pelo nariz”, afirma Gileuza Ramalho.

Em um terreno próximo, existe uma placa: “Vendo barato ou troco”. Mas nunca apareceu ninguém querendo comprar. Segundo Gileuza, explicações já foram solicitadas ao hospital, reportagens denunciando o problema já foram feitas, e nada mudou até agora. “O hospital diz que a Casal é que deve resolver o problema, mas ninguém faz nada. Tem horas que nem acredito que esse problema vai ser resolvido um dia”, lamentou.

VIA-CRÚCIS

Agências de notícias do Sertão trazem, principalmente nos fins de semana, informações sobre acidentes ocorridos na região em que as vítimas são encaminhadas para o Hospital Regional Clodolfo Rodrigues. Em vários casos, o relato complementa que a vítima foi posteriormente transferida para a Unidade de Emergência (UE) do Agreste, em Arapiraca.

Casos considerados simples também são transferidas para o hospital de Arapiraca. A dona de casa Maria José dos Santos, 52, que mora no bairro Santa Rita e fez reclamações em relação ao mau cheiro exalado do esgoto do hospital, relatou a via-crúcis percorrida quando teve uma crise de artrose, há cerca de um mês.

Com dores fortes e rigidez nas articulações dos joelhos, ela foi até o Clodolfo Rodrigues acompanhada da vizinha, Gileuza Ramalho. “Ela não conseguia andar direito e sentia muita dor, mas outras pessoas passaram na frente dela, na hora do atendimento”, relata Gileuza que, devido à preocupação, pediu a um médico que passava pela recepção da emergência do hospital – a mesma que traz a fachada de UPA 24 horas – que atendesse a sua vizinha.

“Falei para o médico que ela estava sentindo muita dor e sabe o que ele disse? Que ninguém morre de dor, porque se dor matasse não sobrava nenhuma mulher que tivesse filho, pois morreriam tudo no parto. Isso não é postura de médico. A gente é pobre, mas não merece ser tratado desse jeito”, reclamou.

Maria José conta que chegou ao hospital por volta das 18 horas e só tomou a medicação para a crise de artrose às 12 horas do dia seguinte. “Só fui atendida no hospital perto das 10 horas da noite e aí me disseram que eles não tinham o remédio que eu precisava. Era quase meia-noite quando me colocaram em uma ambulância para Arapiraca e me levaram para a Unidade de Emergência, mas não me atenderam porque lá só cuidam de caso de trauma e não de doença, como era o meu caso”, relatou.

Depois de passar mais algumas horas de espera e sentindo dor, Maria José foi finalmente transferida para o Hospital Chama, onde tomou a medicação. “Fui liberada para voltar para casa meio-dia. Se tivesse o remédio no hospital de Santana (onde havia chegado 18 horas antes) e se eles tivessem me atendido rápido, na noite anterior estava em casa”, declarou.

O OUTRO LADO

O diretor do Instituto Pernambucano de Assistência à Saúde (Ipas), Marco Calderon, que administra o Hospital Clodolfo Rodrigues, explica que a quantidade de transferências de pacientes para outras unidades hospitalares é pequena em relação aos atendimentos realizados. Segundo ele, o hospital atende cerca de dez mil pessoas por mês, metade em casos de emergência e o restante no atendimento ambulatorial. Já a quantidade de transferências, para a Unidade de Emergência do Agreste e para o Hospital Geral do Estado (HGE), é menor que duzentas.

“Todos os meses, a quantidade de transferências fica em torno de 180 e eu tenho, no meu gabinete, relatórios com a justificativa para cada um desses casos. Não existe recusa de atendimento ou preguiça, até porque atendemos uma região com cerca de 520 mil habitantes de quase 30 municípios do Sertão, e ainda pacientes que vêm de cidades de Pernambuco e de Sergipe, que fazem divisa com Alagoas. Temos UTI, atendimento ginecológico e obstétrico, e somos referência em cirurgia buco-maxilo facial”, afirmou.

Calderon justifica que as transferências acontecem porque o Clodolfo Rodrigues não dispõe de médicos com especialidade em cardiologia e neurologia no quadro de profissionais. “Mas fazemos muito com os recursos que recebemos. Enquanto a Unidade de Emergência chega a receber R$ 8 milhões por mês, o repasse do Clodolfo Rodrigues é pouco mais que um terço desse valor. Nosso contrato não sofre reajuste desde 2010, quando o hospital abriu as portas, e nós temos uma UCI (Unidade de Cuidados Intensivos) funcionando desde março, mas não recebemos recurso nenhum para ela”, declarou.

Os repasses do Clodolfo Rodrigues são de R$ 517 mil da União, R$ 220 mil da prefeitura e ainda pouco mais de R$ 1,4 milhão provenientes do governo estadual. O total de R$ 3,1 milhões mantém uma estrutura com 600 funcionários, entre eles 80 médicos, 166 leitos, UTI adulto, UCI, consultas ambulatoriais e exames de média e alta complexidades.

Em relação ao esgoto do hospital que corre pelas ruas do bairro Santa Rita, Marco Calderon afirma que denúncias já foram levadas às esferas da Vigilância Sanitária municipal e estadual, e que o Hospital Clodolfo Rodrigues não pode fazer mais do que já faz atualmente.

“Por mais que isso possa soar estranho, o esgoto não é um problema nosso. A Casal firmou um convênio com a prefeitura se comprometendo em ligar o hospital à rede de esgoto, mas essa obra sequer foi iniciada. Da nossa parte, caminhões fazem o desgotamento da fossa, diariamente, mas, como se pode ver, isso ainda é insuficiente. Gastamos R$ 11 mil por mês com um serviço que a Casal deveria fazer”, argumentou.

HOSPITAIS E UPAS

Por Maurício Gonçalves, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)

Pense num nó cego sem ninguém para desatar. Falta coragem. O médico recebe 90 pacientes por dia, mas não atende ninguém direito. Abandona o posto e deixa o povo sem saúde básica.
 
O prefeito chora a falta de dinheiro, o vereador compra ambulância e superlota ainda mais o hospital da região, que não tem um raio X.
 
Se precisar, despacha para o HGE. Se o tomógrafo quebra, não conserta, é melhor pagar R$ 60 mil por mês para aumentar o lucro de um hospital particular.

UPA do Benedito Bentes está pronta, mas não funciona

Por Erick Balbino, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre Saúde em Alagoas)

Maceió – “O Biu deixou de ser um bairro há muito tempo. É muita gente para pouco investimento, principalmente na área da saúde”. O motoboy Cícero Júnior dos Santos, de 35 anos, morador do Conjunto Frei Damião, resume a situação do SUS no complexo habitacional Benedito Bentes de modo simples e direto.

O governo do Estado finalizou a construção da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do “Biu” no mês de julho, mas a obra ainda não pode ser inaugurada pela falta de equipamentos e porque o gerenciamento deve passar à Prefeitura de Maceió.

Enquanto isso, a população do Benedito Bentes e das dezenas de aglomerações residenciais que integram o bairro, como Carminha, Parque das Américas e Grota da Alegria, sofre com a superlotação do Minipronto-socorro Denilma Bulhões, que é responsável pelo atendimento de urgência e emergência de toda a região.
 
A prefeita comunitária Ivanilsa Costa acredita que a UPA pode melhorar alguns problemas no bairro, mas não supre todas as necessidades. “Somos quase 250 mil habitantes. Isso representa um número bastante significativo quando comparado com a população de toda a capital. O número de ocorrências por aqui é alto e o minipronto-socorro não suporta”, disse ela.

A nova UPA é considerada de porte 3, tem uma área com mais de 1.200 metros quadrados e deve realizar procedimentos de urgência e emergência, com solução em mais de 90% dos casos. Segundo a assessoria de comunicação da Sesau, cerca de 75% dos equipamentos já chegaram e o prédio será entregue ao município “em breve”.

A UPA funcionará 24h, com uma equipe multiprofissional, realizando acolhimento e classificação de risco. Os pacientes serão destinados para as alas verde, azul e vermelha, de acordo com o grau de complexidade apresentado no momento da chegada.

Instalação de unidade já dura quatro anos

Por Severino Carvalho, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)

Maragogi – A ordem de serviço para a instalação da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Maragogi foi assinada em agosto de 2010, pelo então secretário de Estado da Saúde, Herbert Motta. As obras, entretanto, só seriam iniciadas em 2012, com prazo de conclusão de 90 dias. Mas a estrutura física do prédio só ficaria pronta em janeiro de 2014.

Instalada à margem da AL-101 Norte, a UPA de Maragogi está orçada em R$ 2.396.625,75. A cerca de 200 metros da praia, o prédio de estrutura metálica permanece fechado e já apresenta ferrugem nas vigas. Até agora, apenas o mobiliário foi entregue e permanece guardado dentro de alguns cômodos da unidade. São macas, camas e balcões, além de suportes para aplicação de injeção e soro.

Segundo a secretária municipal de Saúde, Rosana Rios, o mobiliário foi entregue pelo governo do Estado, como contrapartida. Ela assumiu a pasta recentemente e disse que vai se reunir com técnicos da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) para se inteirar sobre a situação da UPA e colocá-la em funcionamento o mais rapidamente possível.

O prefeito Henrique Peixoto (PSD) informa que o município assinou convênio com a Sesau para assumir e realizar a licitação destinada à compra dos equipamentos, avaliados em meio milhão de reais. Os recursos já estão disponíveis na conta específica do município. “Se fosse para o Estado fazer a licitação, demoraria mais um ano, então a Sesau entendeu que o processo licitatório deveria ser feito pelo município e nos repassou os recursos. A licitação foi feita e aguardamos apenas a entrega do material”, informou o prefeito.

A intenção da Sesau é inaugurar a UPA de Maragogi na segunda semana de setembro. Os gestores municipais, entretanto, estudam uma maneira de viabilizar a gestão da unidade, depois que o Estado a repassar à prefeitura. Eles temem não conseguir arcar com os custos mensais da UPA quando esta estiver em funcionamento.

A região Norte do Estado é totalmente desprovida de hospitais e unidades de saúde equipadas. Dessa forma, haveria uma migração de pacientes de outros municípios a Maragogi. “Não será fácil manter a UPA principalmente com a crise financeira que os municípios brasileiros atravessam. Vamos tentar viabilizar um convênio com Japaratinga. O prefeito do município, Newberto Neves, já se mostrou disposto a colaborar financeiramente”, revelou Henrique Peixoto, afirmando ser um sonho pôr em funcionamento a UPA.

Enquanto a instalação da UPA de Maragogi já dura quatro anos, os moradores e visitantes do segundo maior polo hoteleiro de Alagoas e um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil sofrem com uma acanhada Unidade Mista de Saúde, desprovida até de equipamentos de radiologia.

A Unidade Mista de Maragogi tem apenas 12 leitos e registra uma média de 100 atendimentos diários de urgência e emergência (demanda espontânea). O município – com cerca de 30 mil habitantes – não possui hospital. Sem estrutura na Unidade Mista, se avolumam as transferências de pacientes a outros centros, sobretudo a Maceió. De maio a julho, as ambulâncias fizeram 250 viagens.

A Unidade Mista funciona ainda como maternidade, mas apenas para partos normais e de baixo risco. “As minhas companheiras de trabalho costumam dizer que nessa sala de parto tem um Deus vivo”, comenta a parteira Maria de Fátima Santos, 62 anos. Ela garante que já trouxe ao mundo cerca de três mil bebês. Começou na profissão ainda com 16 anos de idade, auxiliando a avó que também era parteira. Para Maria de Fátima, a pior sensação é quando ocorre um óbito durante o parto.

Apesar de a maternidade da Unidade Mista só realizar procedimentos de baixo risco, o caso pode evoluir e se tornar grave, surpreendendo a equipe médica, que não dispõe de equipamentos modernos para monitorar o quadro da paciente e do bebê. Foi o que aconteceu recentemente, lembra Maria de Fátima.

“Recebemos uma gestante que tinha feito três ultrassonografias (fora na Unidade Mista) e o bebê estava na posição correta para nascer. Quando ela começou a sentir as dores do parto, fiz o toque e percebi que a criança havia sentado. Como aqui não fazemos cesarianas, levamos a paciente para Porto Calvo às pressas, mas não teve jeito: o bebê morreu. Quando isso acontece eu fico arrasada. É como se eu perdesse um pedaço de mim”, lamentou Maria de Fátima.

SESAU

A previsão da Sesau é pôr a UPA de Maragogi em funcionamento na segunda semana de setembro. Segundo a Secretaria, a unidade está com a estrutura física pronta e os equipamentos sendo adquiridos. “O Estado aguarda uma posição do município sobre a chegada de todos os equipamentos para instalar e entrar em pleno funcionamento. Aí o Estado passa a gestão à prefeitura, como já aconteceu em Penedo, Viçosa, Marechal Deodoro e Palmeira dos Índios”, informou a Sesau, por meio da assessoria de imprensa.

Os recursos aplicados para a construção e aquisição dos equipamentos da UPA de Maragogi, segundo a Sesau, são provenientes do Ministério da Saúde (R$ 1,4 milhão) e do governo do Estado (R$ 996.625,75). A Sesau esclarece, ainda, que a gestão da UPA é tripartite: o governo federal entra com 50% dos recursos para custeio, o Estado com 25% e o município de Maragogi com os 25% restantes.

Sem assistência, alagoanos vão para Pernambuco

Por Severino Carvalho, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)

Barreiros (PE) – Oitenta por cento da cidade de Barreiros, no Litoral Sul pernambucano, foi atingida pela enchente do Rio Una, em junho de 2010. A enxurrada de águas barrentas pôs no chão o hospital do município com uma população de 42 mil habitantes. Menos de três anos depois, em 1º de fevereiro de 2013, o governo de Pernambuco inaugurava, no Engenho Alegre, à margem da PE-060, o Hospital Municipal Jailton Messias, reconstruído com R$ 10,2 milhões.

É para lá que quase diariamente rumam os alagoanos em busca de atendimento médico de qualidade, seja nas áreas de urgência e emergência ou ambulatorial. No desespero, vale até falsificar o endereço, fingir que é pernambucano, para não ter que penar sem assistência nos hospitais e nas unidades desestruturadas da região Norte de Alagoas.

Segundo a direção do Hospital Municipal de Barreiros, as ocorrências envolvendo pacientes alagoanos chega a 30% de todo o atendimento ali realizado. São, na maioria, moradores dos municípios de Maragogi, Japaratinga e de Porto Calvo, cuja distância média até Barreiros é de 40 quilômetros.

Só de Maragogi, de janeiro até julho, foram atendidos 45 pacientes em consultas emergenciais, sem contar os casos de cirurgias eletivas ali realizadas. “Se for emergência, a gente atende, afinal o Sistema Único é universal. Agora, na parte ambulatorial, não temos obrigação. Mas não vamos voltar um paciente que veio de tão longe e deixá-lo sem atendimento aqui”, disse o diretor administrativo do Hospital Municipal de Barreiros, Marcos Miranda.

Uma médica que já trabalhou em Maragogi e que hoje atua na área clínica do Hospital de Barreiros acredita que a desestruturação da rede de atendimento à saúde de Alagoas provoca essa fuga para o Estado vizinho de Pernambuco.

“Sei que a saúde por lá está um caos em todas as unidades. Eu trabalho aqui (Barreiros) e em São José da Coroa Grande (PE) e é muito comum recebermos pacientes de Maragogi, de Japaratinga, de Porto Calvo. Atendemos casos de emergência pelo SUS em qualquer local, mas muita gente vem aqui em busca de atendimento ambulatorial, usa endereço falso para poder ser atendido, porque não tem assistência em Alagoas”, revelou a médica, que pediu anonimato.

Acometida por dores abdominais, a dona de casa Elane Cristina Barros, moradora do sítio Ponta de Mangue, em Maragogi, procurou atendimento no posto de Saúde da Família do distrito de Peroba. De lá, teve de ser encaminhada à Unidade Mista de Saúde deste município alagoano, no centro da cidade.

Ela foi diagnosticada com suspeita de cálculo renal. Precisava, entretanto, realizar exames. Esperou longos 15 dias, o suficiente para contrair uma infecção urinária que a forçou a buscar atendimento no Hospital Municipal de Barreiros.

“Em Maragogi, eu fui atendida em parte. O problema é que lá não tem como fazer um exame sequer. Aqui a assistência é melhor”, alegou Elane, recompondo-se na área de observação feminina do Hospital de Barreiros. Ao ser indagada sobre como se sente tendo de buscar auxílio em Pernambuco, ela respondeu: “Constrangida. A palavra é essa!”, lamentou.

DIFICULDADES

Mas se engana quem pensa que tudo transcorre às mil maravilhas no Hospital Municipal de Barreiros. O diretor administrativo confessa, logo no primeiro contato: “Estamos sufocados”. O custo para manter um hospital daquele porte, com 54 leitos, 230 funcionários, 32 médicos e cerca de 350 atendimentos diários passa de R$ 1 milhão, a maior parte custeada pelo Ministério da Saúde.

Como no hospital de referência de Porto Calvo, em Alagoas, os municípios circunvizinhos de Barreiros não colaboram financeiramente para manter a instituição. “Não existe um consórcio entre os municípios para nos ajudar. No popular, eu diria que eles fazem a feira e ainda comem da nossa. Estamos fazendo das tripas coração”, resumiu Marcos Miranda, recordando que reuniões já foram realizadas com os prefeitos das cidades vizinhas e a proposta de pactuação de recursos não avançou.

Posto de saúde vira antro de sexo e drogas

Por Patrícia Bastos, repórter da Gazeta de Alagoas (matéria publicada na edição de 24.08.14 - Especial sobre a saúde em Alagoas)

Arapiraca – Mesmo com uma Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada ao lado de casa, na Vila Aparecida, zona rural de Arapiraca, Maria Cíntia dos Santos, 17 anos, precisa caminhar por mais de uma hora para fazer consultas ou vacinar o filho, que tem um ano de idade.

“Faz mais de dois anos que começaram a construir esse posto e o serviço passou mais tempo parado do que em obras. Além da dificuldade que a gente tem para conseguir atendimento, o local está abandonado. Só serve para umas pessoas usarem drogas e levarem mulheres para fazer sexo lá dentro”, denunciou a jovem.

A Gazeta de Alagoas esteve na USB da Vila Aparecida em 31 de julho e constatou a situação de abandono. A construção, em fase de acabamento, está desprezada. Em várias salas há lixo pelo chão e bitucas de cigarro. Em uma outra, a água da chuva ficou empoçada, apresentando risco de contaminação do mosquito da dengue.

O abandono da unidade de saúde é motivo de reclamação para todos os moradores da Vila Aparecida. Alguns chegam até mesmo a afirmar que era melhor quando o posto funcionava, de maneira improvisada, em uma residência naquele local.

“Hoje, se a pessoa não tiver um carro ou uma moto, tem que ir a pé até o posto de saúde do sítio Genipapo. Sempre que encontro alguém indo ou voltando daquela região, dou carona, porque geralmente a pessoa está muito cansada da caminhada no sol”, afirmou um mecânico da comunidade.

Além da difícil e longa caminhada, os moradores da Vila Aparecida e também de Poço da Pedra, Baixa do Capim e Salgado são atendidos em um ambiente inadequado. É que o posto de saúde do Genipapo funciona em uma escola desativada. E ainda há mais problemas. “Queria marcar uma consulta para meu filho com o médico, mas faz muito tempo que o acompanhamento é só com a enfermeira. A vacinação dele também está atrasada. Já fui três vezes até o posto e não havia ninguém para aplicar”, reclamou Cíntia dos Santos.

A assessoria de comunicação da Prefeitura de Arapiraca declarou desconhecer a informação de que a obra da UBS Vila Aparecida continuava paralisada. Conforme o assessor da Secretaria Municipal de Obras, há um cronograma de obras para a construtora contratada para finalizar a obra daquela e de outras nove UBS que estão sendo construídas no município.

Quando ficar pronta, a UBS Vila Aparecida terá dois consultórios médicos, um consultório odontológico, sala de atenção básica da enfermagem, farmácia e ainda salas para aplicação de vacinas, suturas e curativos, além dos setores administrativo e de assistência social.